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23/10/2012

“Padres e hijos”, psicanálise e atualidade

Em agosto, conforme Portal Psico noticiou, Porto Alegre recebeu o Psicanalista argentino Ricardo Rodulfo. Sua ida a capital dos gaúchos incluia, entre outra atividades, o lançamento de seu livro e uma conferência sobre a temática do mesmo.

A mesa-redonda com as presenças de Diana Corso, Marisa Cherubini, Sandra Torossian coordenada por Liane Pessin promoveu uma interessante interlocução de ideias profundas e densas, porém bem conectado com o cotidiano. Temas como a importância dos encontros, do saber jogar, das novas relações entre pais e filhos, entre outros foram trazidos ao atento público que prestigiou o evento.

Dr. Rodulfo retomou algumas questões e se propôs a falar sobre as relações de pais e filhos, abordando o cenário atual. Sobre isso, falou da necessidade de estar atento não apenas para um ou outro membro das relações (ou pais, ou filhos, ou marido, ou mulher), mas também para o “entre”, para o efeito de cada encontro. Lembrou que a democracia é difícil, no entanto é o que fundamenta uma busca de parcerias para poder jogar, partilhar. Mesmo ainda considerando a família como o mais importante formador da subjetividade, ilustrou que a tradição ocidental está em mudança, não mais se organizando de forma centralizada.

O psicanalista argentino conversou sobre as instituições importantes na constituição do sujeito e da psicanálise atual. Para ele, é importante exercitar a leitura do cenário atual, observando as mudanças e as nuances que se refletem dele, como por exemplo o declínio da culpa na nossa sociedade, as relações da criança com a escola desde bebês, a importância dos amigos, a mudança nas relações de hierarquias etc. Sobre a psicanálise atual, Dr. Rodulfo propõe-se fazer uma leitura tentando sair de um centro. “Se pode sair do centro, mas não é fácil”. Propõe pensar as relações humanas com a leitura da psicanálise mas não somente voltada às relações edípicas.

As crianças da contemporaneidade passam grande parte de seu tempo nas escolas, aprendem e se constituem com seus amigos, colegas e professores também, comentou. A escola oferece um segundo olhar, às vezes muito diferente do olhar da família. Na escola são outros códigos e a criança aprende a ser nesses diferentes espaços. O psicanalista apontou que a escola não se limita a aprendizagens intelectuais, mas há um conjunto de traços que vão constituindo as crianças que na escola convivem. Lá, aprendem a trabalhar em ambientes onde existe uma regra para todos, por exemplo. Lembrou que Freud escreveu sobre o desejo de ser adulto nas crianças: “As crianças vão à escola, mesmo sem ter vontade, e passam bem lá, aprendem um monte de coisas; é pelo desejo. Há muito o que pensar sobre isso”, estimulou Dr. Rodulfo.

Outra instituição não menos importante na constituição do sujeito atualmente é o digital ou “a relação com as telas”: a tela da televisão, do celular, do computador. Não refere essas mudanças como negativas, mas como a ilustração de outra forma de se constituir que não privilegia somente a família nessa construção. Daí uma série de novidades a serem pensadas no cotidiano atual, como a dificuldade de estar sozinho e as diferentes formas de atenção das crianças e adolescentes, que conseguem fazer duas ou três atividades ao mesmo tempo, como estudar, escutar música e acessar a internet. São várias janelas abertas ao mesmo tempo; uma forma de atenção que nem sempre os pais entendem, mas que muitas vezes não está mal. São formas diferentes de atenção que surgem, outros ritmos e velocidades. Comentou sobre o campo da presença/ausência que o virtual parece encarnar muito bem. Por fim, falou que o digital implica toda uma nova escritura, uma outra velocidade de funcionar que se instala no subjetivo e ao corpo mesmo.