Le corps de Nancy se dérobe toujours

Carlos C. Coelho¹
Homenagem a Jean-Luc Nancy apresentada no dia 18 de setembro de 2021
na XX Jornada do EBEP-Rio “Comum em transe. Psicanálise,
neoliberalismo e insubmissão”

 

Hoje falaremos sobre o fim: sobre o fim do Mundo, sobre o fim de Um mundo.
Hoje falaremos sobre o fim de Jean-Luc Nancy.
Nancy é considerado por Jacques Derrida como o maior pensador do corpo e do tato na história da filosofia (Cf. Derrida, 2000). Para o filósofo magrebino, “o tocar resta para Nancy como o motivador de um realismo absoluto, irredentista e pós-desconstrutivo” (Derrida, 2000, p. 60).
Nancy pode ser lido como um pensador da comunidade (sem unidade), dos corpos, do tocar,
do espaçamento, do entre, da diferença, da relação, do endereçamento.
Dentre os aliados de Nancy em sua caminhada pela desconstrução, Freud ocupou lugar de destaque, mas também Derrida marcou esta história de herança inscrita no corpus nacyniano. Enquanto um pensador inscrito na tradição da desconstrução, Derrida ofereceu a Nancy não um método, mas uma diferença (uma différance) diante da tradição, uma forma outra de relacionar-se com o texto, ou ainda, um caminho, o caminho da brisura, permitindo-o pensar aquilo que não é nem visível nem invisível, nem sensível nem inteligível, ou seja, o entre, o espaçamento, o limite que separa o Mesmo de seu Outro abrindo espaço para o radicalmente outro (Cf. Derrida, 1967, p.15-108). Além disso, Derrida escreveu um livro dedicado à obra de Nancy (Derrida, 2000) intitulado Le toucher – Jean-Luc Nancy que é considerado por Alain Badiou “como uma reescritura para o nosso tempo do Tratado da alma de Aristóteles” (Babiou, 2004, p. 20). Freud, por sua vez, é o pensador que abriu portas para Nancy pensar o inteligível como afecção corporal – tátil –, porquanto, como diz Freud numa anotação de 1938 “psyche ist ausgedehnt: weiss nichts davon” [a psique é extensa, nada sabe a respeito] (Freud [1938], 1974, v. 23, p. 189). Esta nota de Freud retorna incessantemente pela obra de Nancy para nos mostrar que o pensamento pesa. Hoje eu gostaria de falar justamente sobre o peso do pensamento de Nancy que pesa em nossos corpos e no nosso mundo. Contudo, eu gostaria de escrever apenas uma palavra: “adeus”.
Mas vou endereçar a vocês e a Nancy mais de uma palavra.
Mas prometo que serei breve nesta homenagem. Não faço aqui uma piada, já que sei que vocês sabem bem que em toda promessa inscreve-se o seu perjúrio.


1Carlos C. Coelho é doutor em Filosofia pela PUC-Rio, professor colaborador do Programa de pós-graduação em
Filosofia da UERJ e bolsista de pós-doutorado da CAPES. Membro do EBEP-RJ. Autor do livro “Ontofagia, um
materialismo mágico” (Apeku, 2020), livro no qual esforça-se para construir novas formas de pensar o comum para
além de princípios antrópicos e dos mecanismos coloniais construídos pelo “Ocidente”.

 

Endereço-me ao fim de um mundo que é mais de um e, contudo, mais do que nunca, menos do que o Um. Não há unidade possível de corpo algum, nem de vida alguma. Toda suposta unidade é sempre mais e menos do que o Um. Não há nem multiplicidade, nem unidade: há sempre o mais de um que é menos do que um, como sempre repetia Jean-Luc, o Nancy.
Hoje estamos aqui reunidos para falarmos sobre o fim de Jean-Luc Nancy, o pensador, o filósofo, o pai, o amigo, o leitor, o intruso que nos obsedia esta noite, que carregou um coração estrangeiro em seu peito durante décadas. Estamos aqui, em memória, estendendo a escrita deste mundo e fazendo com que o mundo-Nancy, singular e plural ao mesmo tempo, pese sobre nossos pensamentos: sobre os nossos corpos. Se é que há, aqui, diferença. Pas de differance. Sem diferença e, ao mesmo tempo, um passo de diferença, uma diferença a mais.
Pensamos aqui, juntos, sobre Nancy, sobre o pensamento, e o pensamento-nancy que pesa sobre nós, assim como minhas palavras pesam sobre os seus corpos-mundos, assim como a minha imagem pesa sobre seus olhos e a minha voz sobre os seus ouvidos. Pensar pesa e toca nos corpos. Para Nancy só há corpos, mas isso implica toda uma outra compreensão do que é um corpo. O corpo é sempre corpo-comunidade, sua aparição é sempre comparição e esse corpo comunidade nunca se fecha em unidade. Comparecemos aqui, juntos, singularmente plurais. Nancy comparece aqui, na nossa língua e nos nossos corpos: ele segue ao nosso lado, nos nossos rastros e nós seguimos os seus.

Le corps de Nancy se dérobe toujours. O corpo de Nancy sempre escapa. O corpo vivo ou o
corpo morto, pas de différance.

*

Hoje falaremos sobre um luto impossível, inelutável que obscurece nossos olhos com um véu cinza que deixa o mundo um pouco mais nublado, mais distante daquela que era a demanda mais própria ao pensamento de Jean-Luc: a construção de um sentido comum, um comum marcado na própria différance. As pessoas são estranhas, dizia ele e nós o dizemos trivialmente. Les gens sont bizarres. Ao dizermos isso nos colocamos como fora deste grupo, “das pessoas”, “das gentes”, mas ao mesmo tempo nos incluímos nele. Vocês são todos estranhos – estrangeiros a mim – e eu que falo aqui para vocês devo ser também, de alguma forma, bizarro. O Brasil é composto por gente bizarra e eu, que divido esta terra com muitos deles, muitos que repugno, a começar pelo presidente e sua prole, devo carregar uma marca dessa bizarria em mim, ao me diferenciar deles, na língua que é também deles. Esta estranheza bizarra não nos permite unidade em torno de nenhuma identidade: brasileiro, psicanalista, filósofa, francês, viado, vegano, marxista, neoliberal, todas estas definições são bizarrias que não esgotam nada, não dizem nada de nada, apesar de dizer muito e querer esgotar tudo. Posso dizer que a minha língua portuguesa não é a mesma de Bolsonaro. Quando digo “democracia” e ele diz “democracia” estamos falando de coisas radicalmente distintas. Eu me recuso a acreditar que partilhamos algo, mas, por mais doloroso que seja admitir, de certa forma, partilhamos, mas na diferença. Comunidade inoperante: contra a equivalência geral, Nancy convoca um comunismo da inequivalência. Singular porque plural. Pluralidade produtora de singularidade.

*

Hoje falaremos também sobre a finitude e sobre o infinito.
Nancy está morto e o infinito do seu corpo finito não cessa de se escrever aqui, entre as minhas palavras e os meus traços e cada um de vocês.
Nancy escrevia muitas vezes a palavra “escrita” atravessada por um “X”, por uma encruzilhada ou um cruzamento que está marcado em toda escrita. Excrever é, para ele, encontro, inscrever o fora dentro: êxtase, excesso, excedentes, restos.
Eu poderia falar sobre a ontologia dos corpos; sobre a transimanência, que é o esforço de superar a oposição entre a imanência e a transcendência; eu poderia falar sobre o tocar enquanto lei geral dos sentidos; da strução, este amontoado que é anterior e condição de toda construção e de toda desconstrução; da técnica e sua relação com a equivalência geral: a equivalência catastrófica.
Eu poderia falar de diversos conceitos, mas estamos aqui para fazer uma homenagem e saudar JeanLuc.

Desta forma, eu gostaria apenas de contar uma história singular que me foi contada, a
história de uma excrita num corpo.
Numa tarde de primavera, em maio de 2012 na cidade de Estrasburgo, Jean-Luc e eu conversávamos em sua casa. Após eu perguntar a Jean-Luc acerca da influência do estruturalismo na sua obra, linha de pensamento que, junto da desconstrução, eram os meus grandes fios condutores na altura, ele respondeu de maneira evasiva, dizendo que nunca havia escrito muito sobre o tema. Logo percebi que, ao lado da sua poltrona, encontrava-se um livro de Émile Benveniste que havia sido publicado recentemente na França e eu, de imediato, o questionei se ele não estava lendo um dos grandes estruturalistas franceses.

Jean-Luc me respondeu que sim e logo me contou uma história digna da narrativa do Banquete de Platão. Julia Kristeva, grande pensadora e amiga pessoal de Benveniste, havia contado uma história a alguém, que por sua vez havia narrado para Nancy, que por sua vez me contou esta história que eu repasso a vocês, quase dez anos após escutá-la numa primavera na Alsácia.

Este notório linguista francês encontrava-se no seu leito de morte, internado no hospital. Por uma grande ironia do destino, ele não conseguia falar, as palavras se escondiam de sua boca, a fala o havia abandonado. Assim, não lhe restava outra coisa além da escrita para se comunicar. Uma fina ironia para quem é escolado no pensamento da desconstrução que coloca em questão o primado da voz. Numa visita de Kristeva a Benveniste no hospital, o linguista tentava dizer algo para a sua visitante. Nesse momento, Kristeva, diante da incapacidade de Benveniste se pronunciar, ofereceu lhe uma caneta. Benveniste apropriou-se da caneta e escreveu, no colo de Kristeva, acima de seus seios, fazendo de sua pele e de seu corpo tecido para a tessitura de um texto, “Dieu”, “Deus”. E eu estendo aqui esta excrita, com x, ex do excesso: Adieu? Adeus?

Logo o linguista que levou a cabo o projeto de uma linguística da parole, da fala, criando o espaço teórico para a semântica, o pensador que se encontrava no leito de morte, com o poder de se comunicar apenas através da escrita, escolheu como suporte, como base para esta escrita, não uma folha de papel, mas o corpo – e não qualquer corpo ‒ mas o de uma mulher: este pequeno outro em relação à tradição supremacista e falocêntrica da metafísica. Deus, então, emergiu não como palavra viva, mas como texto tecido sobre o corpo singular de uma mulher. O encontro – material como todo encontro, como o nosso, aqui e agora – entre as mãos de um Benveniste sem voz, de uma caneta e de uma Kristeva em luto, gerou uma cadeia de eventos que nos conduz até aqui nesta conversa, neste luto partilhado. Luto de Kristeva por Benveniste. Nosso luto diante do Adeus a Jean-Luc, o Nancy.

Podemos dizer que Deus, o Fora, efetua-se no interior de cada corpo, de cada existente. Ou seja, não existe Deus, mas cada existente é Deus, é o fora, é um corpo – corpo a ser tocado, a reportar-se, relacionar-se –, e cada existente é criador ao mesmo tempo em que é criação. Não exist um criador fora do mundo, mas a criação acontece entre nós, entre cada existente. Os agenciamentos entre os diversos corpos criam mundo(s). É a rede de relação e endereçamento que é a criadora, e nunca um Ente fora do mundo que cria todos os outros entes do(s) mundo(s). Assim, s há algo como Deus, o infinito, ele se efetua dentro, no interior da estrutura existencial – ele é o próprio espaçamento que nos separa e não permite a totalidade. Este movimento do fora que se efetua dentro, Nancy chama de transimanência. Fazer sentido nada mais é do que o endereçamento e o lançamento entre um corpo e os outros corpos.

Questão de direção.

Um mundo é uma relação circunscrita entre corpos. Aqui habitamos o mundo da psicanálise, o mundo da língua portuguesa, o mundo da identidade brasileira e tantos outros mundos que se inscrevem e excrevem (com x) em nossos corpos. Eu habito agora o excesso da escrita que atravessa a minha fala enlutada.

Nancy está aqui, como sempre, entre nós. Nancy está aqui, como nunca, e ele segue em memória. Na memória que é o nosso corpo. Na memória que são os seus livros e as suas palavras. Na memória de um encontro que partilho com vocês e na responsabilidade que carregamos enquanto permanecemos aqui, com as palavras em nosso poder contra todo poder verticalmente instituído.

Como Benveniste, eu escrevo Deus sobre os seus corpos que são eles próprios resultados de muitas escritas e inscrições, eles próprios impróprios. Eu marco, neste momento, os seus ouvidos com essa escrita. Mas eu escrevo, também, Deus no meu corpo. Eu escrevo Deus sobre a escrita do corpo de Nancy que permanece no meu corpo. Eu escrevo no corpo de Nancy, inscrito no meu corpo, e escrevo essa inscrição em vocês. Enquanto as palavras não me abandonarem, Nancy viverá em mim e seu pensamento penderá, infinito, sobre o meu corpo finito.

Eu escrevo Deus, o infinito; a Deus (para Deus), ao infinito, eu escrevo adeus Jean-Luc,
adeus Nancy.

O seu infinito segue entre nós – nos segue.

Adeus.

 

Textos referidos:
BADIOU, A. “L’offrande réservée” in: Sens em tous sens – autour des travaux de Jean-Luc Nancy,
Paris: Éditions Galilée, 2004, p.13-24.
DERRIDA, Jacques. De la Gramatologie. Paris: Minuit, 1967.
DERRIDA, Jacques. Le toucher – Jean-Luc Nancy, Paris: Éditions Galilée, 2000.
FREUD, Sigmund. (1974). Obras completas. Edição Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago,
1974. 23v. Especificamente: V.23 Achados, idéias, problemas [1938].